Central de Peritos Associados

Perícia Trabalhista

Verbas rescisórias: o que o perito confere na planilha de rescisão

O que os arts. 477 e 478 da CLT determinam sobre verbas rescisórias, quais erros o perito trabalhista encontra na planilha e a tese do TST Tema 142.

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Por Edilson Aguiais

2 de junho de 2026 · 10 min de leitura

Perito trabalhista analisando planilha de verbas rescisórias com a CLT aberta ao fundo
A análise pericial da planilha de rescisão revela erros de cálculo que determinam o valor real devido ao trabalhador conforme os arts. 477 e 478 da CLT.

As verbas rescisórias são o conjunto de parcelas trabalhistas que o empregador deve pagar ao trabalhador no momento da extinção do contrato de trabalho, e sua correta apuração está disciplinada, em especial, pelos arts. 477 e 478 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Um único erro na base de cálculo — como excluir horas extras habituais ou adicionais de insalubridade do salário médio — pode gerar diferenças de dezenas de milhares de reais em detrimento do empregado. Neste artigo, você entende o que a lei determina, quais parcelas compõem o acerto rescisório e quais são os erros mais comuns que o perito trabalhista encontra na planilha de rescisão.

O que determinam os arts. 477 e 478 da CLT

O art. 477 da CLT estabelece que, na extinção do contrato de trabalho, o empregador tem três obrigações principais: anotar a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), comunicar a dispensa aos órgãos competentes e pagar as verbas rescisórias dentro do prazo legal. A Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) unificou os prazos anteriores em um único prazo de até dez dias corridos, contados a partir do término do contrato, conforme o art. 477, § 6º, da CLT.

O descumprimento desse prazo gera a multa prevista no art. 477, § 8º: o empregador fica obrigado a pagar ao trabalhador, a título de penalidade, o equivalente a um salário mensal. A multa independe de culpa subjetiva e não exige prova de prejuízo — basta demonstrar que o pagamento ou a entrega das guias (FGTS e seguro desemprego) ocorreu fora do prazo estipulado.

O art. 478 da CLT, por sua vez, regula as rescisões antecipadas de contratos por prazo determinado. Se o empregador rescindir o contrato antes do término estipulado, deverá indenizar o trabalhador com valor equivalente à metade dos salários que seriam devidos até o fim do prazo (art. 478, caput). Essa indenização é cumulável com as demais verbas rescisórias e exige apuração separada na planilha pericial, com discriminação do período remanescente e da base de cálculo aplicável.

Antes e depois da Reforma Trabalhista

Antes da Lei 13.467/2017, o art. 477 da CLT previa prazos diferentes conforme a modalidade de rescisão e o cumprimento ou não do aviso prévio. A Reforma simplificou o sistema para um prazo único de dez dias, mas manteve a multa de um salário como consequência do descumprimento — o que torna o controle desse prazo uma das primeiras verificações do perito ao analisar a documentação de rescisão apresentada nos autos.

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As parcelas que compõem o acerto rescisório

O acerto rescisório varia conforme a modalidade de extinção do contrato de trabalho. Na dispensa sem justa causa — a mais frequente nos processos trabalhistas —, o trabalhador tem direito a: saldo de salário dos dias trabalhados no mês do desligamento; 13º salário proporcional ao número de meses trabalhados no ano; férias vencidas (quando não gozadas) acrescidas do terço constitucional; férias proporcionais mais o terço constitucional; aviso prévio (trabalhado ou indenizado); e saque do FGTS com a multa de 40% sobre o saldo total do fundo, conforme o art. 18, § 1º, da Lei 8.036/1990.

No pedido de demissão, o trabalhador não tem direito ao saque do FGTS com multa nem ao seguro desemprego, e deve cumprir ou indenizar o aviso prévio. Na rescisão por acordo, prevista no art. 484-A da CLT (introduzido pela Reforma Trabalhista), o trabalhador recebe 50% do aviso prévio indenizado e 20% da multa do FGTS, podendo movimentar 80% do saldo do fundo. O perito deve identificar a modalidade correta antes de iniciar o cálculo, pois ela determina quais parcelas são devidas e em quais proporções.

O aviso prévio merece atenção especial na planilha. Desde a Lei 12.506/2011, o aviso prévio é proporcional ao tempo de serviço: 30 dias acrescidos de três dias por ano completo trabalhado para o mesmo empregador, até o máximo de 60 dias adicionais — chegando a 90 dias de aviso prévio nos contratos com 20 ou mais anos de duração. Quando o aviso é indenizado, o período correspondente é projetado como tempo de serviço para o cálculo do FGTS, do 13º salário e das férias proporcionais.

Base de cálculo: o ponto mais contestado no processo

A base de cálculo de cada parcela rescisória não se limita ao salário contratual básico. Horas extras prestadas com habitualidade, adicionais de insalubridade, de periculosidade e noturno, comissões e gorjetas integram a remuneração do trabalhador e devem compor a base de cálculo do 13º proporcional, das férias proporcionais e, reflexamente, do aviso prévio indenizado. O empregador que usa apenas o salário base comete erro de cálculo passível de apuração pericial e geração de diferenças a favor do trabalhador.

Os erros mais comuns que o perito identifica na planilha

A análise pericial da planilha de rescisão começa pela conferência da base de cálculo utilizada pelo empregador. O erro mais frequente é a exclusão de parcelas habitualmente pagas da remuneração usada como base das verbas rescisórias. Horas extras prestadas com regularidade, adicionais de insalubridade, de periculosidade e noturno integram a remuneração do trabalhador e devem compor a base de cálculo do 13º salário proporcional, das férias proporcionais e do aviso prévio indenizado — independentemente do que o contrato de trabalho individual estabeleça.

Outro erro recorrente é o FGTS não recolhido sobre parcelas salariais ao longo da vigência do contrato. O perito verifica, mês a mês, o extrato analítico do fundo e confronta os depósitos realizados com os valores que deveriam ter sido recolhidos (alíquota de 8% da remuneração, em regra). Quando há diferenças de recolhimento, o saldo do fundo é menor do que deveria ser, reduzindo também a multa de 40% devida na dispensa sem justa causa e gerando um saldo devedor que integra o laudo.

A omissão das férias em dobro (art. 137 da CLT) aparece com frequência quando o empregado não gozou férias dentro do período concessivo. Se o trabalhador foi dispensado sem ter recebido a indenização correspondente, o perito apura o valor em dobro acrescido do terço constitucional. Há ainda casos de aviso prévio proporcional calculado com menos dias do que o devido, especialmente quando o empregador não aplica os acréscimos previstos na Lei 12.506/2011.

PLR e o risco de subestimação das verbas rescisórias

A Participação nos Lucros e Resultados (PLR) é outra fonte de divergência frequente. Quando a PLR tem amparo em acordo coletivo válido nos termos da Lei 10.101/2000, não integra a remuneração para fins rescisórios. Se o perito constata pagamentos mensais sem acordo coletivo ou com frequência equivalente à de salário, a parcela perde a natureza de PLR e passa a integrar a base de cálculo das verbas rescisórias. Essa análise exige confronto dos documentos internos com a convenção coletiva da categoria e os contracheques de todo o período contratual.

A multa do art. 477 e o Tema 142 do TST

A multa prevista no art. 477, § 8º, da CLT ganhou contornos mais nítidos com o julgamento do Tema 142 pelo Tribunal Superior do Trabalho, no processo RR nº 11070-70.2023.5.03.0043, pela sistemática de recursos repetitivos. A controvérsia central era a base de cálculo da penalidade: deveria incidir sobre o salário contratual básico ou sobre a remuneração total do trabalhador, incluindo adicionais habituais e parcelas variáveis?

O TST firmou tese no sentido de que a multa do art. 477, § 8º, alcança todas as parcelas de natureza salarial devidas no momento do desligamento — e não apenas o salário base. Para advogados que atuam na defesa de trabalhadores com remuneração variável expressiva — comissionistas, empregados com horas extras habituais ou adicionais de insalubridade elevados —, a tese representa aumento significativo no valor da penalidade exigível do empregador inadimplente, em comparação com a prática anterior de limitar a multa ao salário básico.

Na prática pericial, o Tema 142 cria uma etapa adicional de verificação: além de confirmar se o pagamento ocorreu dentro dos dez dias legais, o perito deve apurar se a base de cálculo da multa foi corretamente determinada. O laudo apresenta o cálculo da multa com a base correta (remuneração total de natureza salarial), compara com o valor eventualmente pago ou omitido pelo empregador e indica a diferença devida, com correção monetária e juros de mora.

Cumulação com indenização por danos morais

Em situações de atraso prolongado ou reiterado no pagamento das verbas rescisórias, o trabalhador pode pleitear, além da multa do art. 477, indenização por danos morais decorrentes da privação de meios de subsistência no período de inadimplência. O perito documenta o histórico cronológico de pagamentos e o período de descumprimento, fornecendo a linha do tempo que o magistrado utiliza para avaliar a extensão do dano. Esse elemento temporal do laudo é ferramenta relevante para o advogado do reclamante na fase de instrução processual.

Como o laudo pericial organiza a prova no processo trabalhista

Quando o advogado questiona os valores do acerto rescisório na reclamação trabalhista, o juiz pode nomear um perito para apurar as diferenças. O laudo pericial trabalhista é o documento técnico que transforma os números da planilha de rescisão em prova judicial apta a fundamentar a condenação. Sua função corresponde ao que o art. 879 da CLT denomina liquidação de sentença por cálculo: o perito apura o valor exato das diferenças com base nos títulos reconhecidos pelo magistrado.

O perito solicita ao empregador toda a documentação do vínculo empregatício: contracheques mês a mês, cartão de ponto, Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho (TRCT) assinado, extrato analítico do FGTS, comprovantes de pagamento de PLR, acordo ou convenção coletiva aplicável e políticas internas de remuneração variável. Com esse conjunto documental, elabora uma planilha discriminada, parcela a parcela e mês a mês, com memória de cálculo transparente e auditável por qualquer das partes.

Sobre as diferenças apuradas incidem correção monetária pelos índices fixados pelo TST e juros de mora de 1% ao mês a partir do ajuizamento da ação, conforme o art. 883 da CLT e a Súmula 200 do TST. O perito apresenta a memória de cálculo completa para que qualquer parte possa conferir e, se necessário, impugnar cada etapa da apuração — o que garante o contraditório técnico previsto no art. 465, § 1º, do CPC, aplicado subsidiariamente ao processo trabalhista.

O assistente técnico como ferramenta do contraditório

Cada parte pode indicar um assistente técnico para acompanhar a perícia, formular quesitos e impugnar o laudo. O assistente do empregador questiona habitualmente a integração de parcelas variáveis à base de cálculo; o do trabalhador aponta verbas omitidas ou bases de cálculo reduzidas. O perito judicial responde às impugnações no laudo complementar, e o juiz decide com base nas respostas técnicas — o que reforça o papel do laudo como peça central tanto na fase de conhecimento quanto na execução do processo.

A perícia trabalhista é o instrumento pelo qual o advogado transforma uma planilha de rescisão contestada em prova judicial consistente e auditável. O perito apura as diferenças parcela a parcela, com memória de cálculo completa, e o laudo fundamenta tanto a fase de conhecimento quanto a liquidação de sentença prevista no art. 879 da CLT.

A Central de Peritos Associados é especializada em perícia contábil, econômica e financeira. Atua em todo o Brasil com equipe multidisciplinar.

Perguntas frequentes

O que são verbas rescisórias?

São as parcelas trabalhistas devidas ao empregado no momento da extinção do contrato de trabalho. Sua apuração está disciplinada principalmente pelos arts. 477 e 478 da CLT e varia conforme a modalidade de rescisão: dispensa sem justa causa, pedido de demissão, justa causa ou rescisão por acordo.

Quais verbas são devidas na dispensa sem justa causa?

Na dispensa sem justa causa, o trabalhador tem direito a: saldo de salário, 13º salário proporcional, férias vencidas e proporcionais com terço constitucional, aviso prévio (trabalhado ou indenizado) e saque do FGTS com multa de 40% sobre o saldo total do fundo, conforme o art. 18, § 1º, da Lei 8.036/1990.

Qual o prazo para pagamento das verbas rescisórias?

O art. 477, § 6º, da CLT, com redação dada pela Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), estabelece prazo único de até dez dias corridos após o término do contrato para pagamento das verbas rescisórias e entrega das guias de FGTS e seguro desemprego.

O que acontece se o empregador atrasar o pagamento?

O empregador fica sujeito à multa do art. 477, § 8º, da CLT, equivalente ao último salário do trabalhador. Com o Tema 142 do TST (RR nº 11070-70.2023.5.03.0043), a base de cálculo dessa multa inclui todas as parcelas de natureza salarial, não apenas o salário contratual básico.

Como funciona o aviso prévio proporcional?

Pela Lei 12.506/2011, o aviso prévio é de 30 dias acrescidos de três dias por ano completo de serviço para o mesmo empregador, até o limite de 60 dias adicionais — totalizando, no máximo, 90 dias para trabalhadores com 20 ou mais anos de empresa.

Quais erros o perito mais encontra na planilha de rescisão?

Os erros mais comuns são: base de cálculo restrita ao salário base sem incluir horas extras habituais e adicionais; FGTS não recolhido sobre parcelas salariais ao longo do contrato; férias em dobro omitidas quando não houve gozo no período concessivo; e aviso prévio proporcional calculado com menos dias do que o previsto na Lei 12.506/2011.

O advogado pode indicar um assistente técnico para a perícia trabalhista?

Sim. O art. 465, § 1º, do CPC, aplicado subsidiariamente ao processo trabalhista, autoriza cada parte a nomear um assistente técnico para acompanhar a perícia, formular quesitos e impugnar o laudo do perito judicial. O perito responde às impugnações no laudo complementar, garantindo o contraditório técnico.

Não encontrou todas as respostas por aqui?

Entre em contato com a Central de Peritos Associados. Nossa equipe realiza perícias trabalhistas com planilha discriminada, memória de cálculo completa e laudo técnico fundamentado para subsidiar a tese do advogado em todas as fases do processo.

Fontes: ConJur CLT arts. 477, 478, 484-A; Lei 13.467/2017; Lei 12.506/2011; Lei 8.036/1990; ConJur RR nº 11070-70.2023.5.03.0043, Tema 142 TST; Planalto Decreto-Lei 5.452/1943 (CLT), arts. 477, 478, 484-A, 879, 883.

Perguntas frequentes

O que são verbas rescisórias?

São as parcelas trabalhistas devidas ao empregado no momento da extinção do contrato de trabalho. Sua apuração está disciplinada principalmente pelos arts. 477 e 478 da CLT e varia conforme a modalidade de rescisão: dispensa sem justa causa, pedido de demissão, justa causa ou rescisão por acordo.

Quais verbas são devidas na dispensa sem justa causa?

Na dispensa sem justa causa, o trabalhador tem direito a: saldo de salário, 13º salário proporcional, férias vencidas e proporcionais com terço constitucional, aviso prévio (trabalhado ou indenizado) e saque do FGTS com multa de 40% sobre o saldo total do fundo, conforme o art. 18, § 1º, da Lei 8.036/1990.

Qual o prazo para pagamento das verbas rescisórias?

O art. 477, § 6º, da CLT, com redação dada pela Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), estabelece prazo único de até dez dias corridos após o término do contrato para pagamento das verbas rescisórias e entrega das guias de FGTS e seguro desemprego.

O que acontece se o empregador atrasar o pagamento?

O empregador fica sujeito à multa do art. 477, § 8º, da CLT, equivalente ao último salário do trabalhador. Com o Tema 142 do TST (RR nº 11070-70.2023.5.03.0043), a base de cálculo dessa multa inclui todas as parcelas de natureza salarial, não apenas o salário contratual básico.

Como funciona o aviso prévio proporcional?

Pela Lei 12.506/2011, o aviso prévio é de 30 dias acrescidos de três dias por ano completo de serviço para o mesmo empregador, até o limite de 60 dias adicionais — totalizando, no máximo, 90 dias para trabalhadores com 20 ou mais anos de empresa.

Quais erros o perito mais encontra na planilha de rescisão?

Os erros mais comuns são: base de cálculo restrita ao salário base sem incluir horas extras habituais e adicionais; FGTS não recolhido sobre parcelas salariais ao longo do contrato; férias em dobro omitidas quando não houve gozo no período concessivo; e aviso prévio proporcional calculado com menos dias do que o previsto na Lei 12.506/2011.

O advogado pode indicar um assistente técnico para a perícia trabalhista?

Sim. O art. 465, § 1º, do CPC, aplicado subsidiariamente ao processo trabalhista, autoriza cada parte a nomear um assistente técnico para acompanhar a perícia, formular quesitos e impugnar o laudo do perito judicial. O perito responde às impugnações no laudo complementar, garantindo o contraditório técnico.

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Escrito por

Edilson Aguiais

Advogado (OAB-GO 59.889), contador e economista. Perito judicial e fundador da Central de Peritos Associados, com atuação em perícia contábil, bancária e judicial.

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