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Perícia Trabalhista

Horas extras intervalares após a Reforma de 2017

A hora extra intervalar do art. 71 da CLT mudou na Lei 13.467/2017. Veja quantidade, natureza e o que a perícia apura no corte.

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Por Robson Antonello

7 de setembro de 2026 · 11 min de leitura

Horas extras intervalares após a Reforma de 2017
Horas extras intervalares após a Reforma de 2017

O que é hora extra intervalar e em que ela difere da hora extra comum?

A hora extra intervalar é o pagamento devido quando o intervalo intrajornada do art. 71 da CLT não é concedido ou é concedido só em parte, com acréscimo de no mínimo 50% sobre a hora normal. Ela não se confunde com a hora extra por excesso de jornada: esta remunera o trabalho além do contrato; aquela indeniza ou remunera a supressão do descanso, conforme a faixa da Lei 13.467/2017. A diferença decide quantidade, reflexos e a base do valor-hora.

O art. 71, caput, da CLT, exige intervalo mínimo de uma hora em trabalho contínuo superior a seis horas, limitado a duas horas, salvo acordo escrito ou norma coletiva em sentido diverso. No § 1º, jornada de quatro a seis horas gera quinze minutos. A finalidade é descanso e alimentação. Quando o cartão de ponto mostra saída para refeição menor que o mínimo, ou inexistente, nasce a verba intervalar — e não a hora extra comum, ainda que o relógio totalize mais de oito horas no mesmo dia.

A conferência não começa pelo adicional de 50%. Começa pela jornada contratual, pelo intervalo devido naquele dia e pelo tempo efetivamente usufruído. Sem esses três eixos, misturar intervalar com sobrejornada infla a base, aplica súmula errada e entrega à executada o argumento clássico de impugnação.

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A equipe reconstrói o cartão de ponto, separa as faixas da Reforma de 2017 e aponta quantidade, natureza e reflexos devidos em cada período.

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O que a Reforma de 2017 mudou no art. 71, § 4º, da CLT?

A Lei 13.467, de 13 de julho de 2017, entrou em vigor em 11 de novembro de 2017 e reescreveu o art. 71, § 4º, da CLT. A redação vigente diz que a não concessão ou a concessão parcial do intervalo mínimo implica o pagamento, de natureza indenizatória, apenas do período suprimido, com acréscimo de 50% sobre a remuneração da hora normal. Três cortes saem desse parágrafo: natureza, quantidade e reflexos.

Até 10/11/2017, a parcela tinha natureza remuneratória. A Súmula 437, I, do TST mandava pagar o intervalo inteiro, mesmo na supressão parcial, e o item III da mesma súmula fazia a verba repercutir em outras parcelas. De 11/11/2017 em diante, paga-se só o tempo faltante, sem integração salarial, sem FGTS, sem INSS sobre a verba e sem reflexos em RSR, 13º e férias. Contrato que atravessa novembro de 2017 exige duas linhas, dois subtotais e duas naturezas — uma faixa única distorce o quantum.

O art. 611-A, III, da CLT, também da Reforma, autoriza norma coletiva a reduzir o intervalo, respeitado o mínimo de 30 minutos em jornada superior a seis horas. O STF, no Tema 1046 (RE 1.121.633, Rel. Min. Gilmar Mendes, mérito em 2022), fixou que a negociação coletiva prevalece, ressalvados direitos absolutamente indisponíveis. A validade da cláusula é matéria de mérito; a perícia apura as duas hipóteses — com e sem a redução — e declara a premissa, em vez de escolher.

Um exemplo didático, sem vínculo com caso concreto: salário-base de R$ 3.000,00, divisor 220, intervalo devido de 1 hora, usufruído de 30 minutos, 22 dias no mês. Valor-hora = R$ 13,64. Na faixa pós-Reforma entram 0,5 h por dia: R$ 13,64 × 1,50 × 0,5 × 22 ≈ R$ 225,06, sem reflexos. Na faixa até 10/11/2017 entram 1,0 h por dia: o dobro da hora cheia no mês, mais RSR, 13º, férias + 1/3 e FGTS. A mesma supressão de 30 minutos não produz o mesmo número nas duas margens da lei.

Como a Súmula 437 do TST ainda vale até 10/11/2017?

A Súmula 437 do TST continua sendo a fonte viva do período anterior à Reforma. O item I reproduz a regra da antiga OJ 307 da SDI-1, convertida pela Resolução 185/2012: após a Lei 8.923/1994, a concessão parcial implica o pagamento total do período correspondente, e não apenas do trecho suprimido, com acréscimo de no mínimo 50%, sem prejuízo do cômputo da jornada efetivamente laborada. Citar a OJ 307 como se ainda fosse verbete autônomo é deslize que a executada usa para desqualificar o laudo.

O item III afirma a natureza salarial da parcela na redação da Lei 8.923/1994 e justifica os reflexos. O item IV cuida da jornada de seis horas habitualmente ultrapassada: o intervalo devido passa a ser de uma hora, não de quinze minutos. O item II, que invalidava cláusula coletiva de redução, convive, a partir de 11/11/2017, com o art. 611-A, III, da CLT e com o Tema 1046 do STF; a perícia não resolve a validade, registra as duas contas.

A Súmula 340 do TST não se aplica à intervalar. Ela trata de comissionista em sobrejornada e manda pagar só o adicional sobre a parte variável, porque as comissões já remuneraram as horas. No intervalo não há venda: há descanso suprimido. O fundamento da hora cheia mais 50% é a Súmula 437, I, e o próprio art. 71, § 4º. A OJ 397 da SDI-1 fala de comissionista misto em sobrejornada, não de intervalo; usá-la na intervalar entrega fundamento errado.

A base do valor-hora da intervalar é o salário-base, sem insalubridade, periculosidade ou adicional noturno. A Súmula 264 do TST, que amplia a base da hora extra comum com parcelas habituais, não se transplanta automaticamente para cá. Divisor segue o título; na falta, a jornada semanal vezes cinco (Súmula 431 do TST: 44 h → 220; 40 h → 200; 36 h → 180). Divisor 220 em jornada de seis horas subavalia a hora em cerca de 18% na faixa inteira.

Quais documentos a perícia precisa para apurar a intervalar?

A reconstrução começa pelos cartões de ponto ou controles de jornada do período deferido, com marcações de entrada, início do intervalo, retorno e saída. Sem o controle, a Súmula 338 do TST trata da presunção relativa quando o empregador, obrigado a anotar, não apresenta os registros. A perícia não inventa a jornada: declara a lacuna e aplica o que o título fixou.

O segundo bloco é o salário-base: recibos, contracheques e o contrato. Usar a remuneração total — com adicionais — infla a hora intervalar. O terceiro bloco é a jornada pactuada e a norma coletiva vigente em cada ano, porque o intervalo devido e a eventual redução de 30 minutos mudam com a CCT/ACT da vigência, não com a cláusula mais recente.

Completam o dossiê a sentença (período, natureza reconhecida, divisor) e, quando houver, o PJe-Calc da parte contrária. A sentença que silencia sobre a natureza não autoriza uma faixa só: aplica-se o corte legal de 11/11/2017 e registra-se a premissa. Juros e correção não se misturam a essa planilha histórica; seguem ADC 58 e, quando couber, a Lei 14.905/2024, em etapa própria.

Onde o cálculo costuma divergir na liquidação?

A divergência mais frequente é lançar só os minutos suprimidos no período até 10/11/2017, contra a Súmula 437, I. A segunda é pagar o intervalo inteiro depois de 11/11/2017, contra o art. 71, § 4º, na redação da Lei 13.467/2017. A terceira é manter reflexos na faixa indenizatória. Qualquer uma das três altera o quantum de forma material e vira o alvo da impugnação.

Há um quarto ponto: a base. Incluir adicional noturno ou insalubridade no valor-hora da intervalar, ou aplicar a Súmula 340 ao comissionista, troca a fórmula. Um quinto: o RSR calculado depois do 13º, quando a ordem correta é hora intervalar → RSR → 13º e férias sobre (hora + RSR) → FGTS sobre (hora + RSR + 13º), com férias indenizadas fora da base do FGTS, na forma do art. 15, § 6º, da Lei 8.036/1990.

Turno ininterrupto de revezamento e motorista profissional pedem leitura própria. No turno de seis horas, quinze minutos bastam, salvo se a jornada foi habitualmente ultrapassada (Súmula 437, IV). No transporte rodoviário, o art. 71, § 5º, da CLT, incluído pela Lei 13.103/2015, admite fracionamento coincidente com a parada obrigatória. Intervalo interjornada do art. 66 da CLT (onze horas entre jornadas) não é intervalar: a OJ 355 da SDI-1 trata de hora extra comum por analogia, em rotina distinta.

Como a perícia trabalhista reconstrói as duas faixas?

A perícia trabalhista não decide o mérito da reclamatória. Ela apura, no título e nos controles, a quantidade de intervalo devido, a quantidade usufruída e a diferença, dia a dia, com corte em 11/11/2017. Até 10/11/2017 lança o intervalo devido inteiro; de 11/11/2017 em diante, só o suprimido. Marca reflexos na primeira faixa e os desmarca na segunda. A fórmula viva é (salário-base ÷ divisor) × 1,50 × quantidade do dia.

No PJe-Calc, a orientação operacional é criar verba específica de hora extra intervalar, base só no salário-base, percentual de 50% (o sistema soma a hora cheia) e duas linhas de período. Observação no laudo: natureza remuneratória até 10/11/2017 e indenizatória a partir de 11/11/2017, com a premissa de que o título não tenha fixado critério diverso.

A identificação de quantidade errada, reflexo indevido ou base inflada exige memória auditável — o que reforça a importância da perícia trabalhista nestes casos. Sem cartão, sem recibo ou sem divisor no título, a entrega registra `não identificado` ou `NAO_CONFIRMADO` na etapa afetada, em vez de completar por plausibilidade.

Perguntas frequentes

A hora extra intervalar é a mesma hora extra por excesso de jornada? Não. A hora extra comum remunera o trabalho além do contrato, com natureza remuneratória e base da Súmula 264 do TST. A intervalar nasce da supressão do art. 71 da CLT, usa salário-base e muda de regime em 11/11/2017.

A Reforma de 2017 extinguiu o pagamento do intervalo suprimido? Não. O art. 71, § 4º, na redação da Lei 13.467/2017, mantém o pagamento, agora indenizatório e limitado ao período efetivamente suprimido, com acréscimo de 50%.

A Súmula 437 do TST ainda se aplica? Sim, no período até 10/11/2017, sobretudo os itens I (intervalo inteiro) e III (natureza salarial e reflexos). De 11/11/2017 em diante prevalece o § 4º novo.

Pode-se reduzir o almoço para 30 minutos? A partir de 11/11/2017, o art. 611-A, III, da CLT admite redução por norma coletiva, com mínimo de 30 minutos em jornada superior a seis horas, à luz do Tema 1046 do STF. A validade da cláusula é de mérito; a perícia calcula as duas hipóteses.

A Súmula 340 do TST vale para o comissionista na intervalar? Não. A Súmula 340 cuida de sobrejornada. Na intervalar não há comissão no intervalo; paga-se hora cheia mais 50%, com fundamento na Súmula 437, I.

Como entra o FGTS na faixa pré-Reforma? O FGTS de 8% incide sobre hora intervalar + RSR + 13º. Férias indenizadas ficam de fora, na forma do art. 15, § 6º, da Lei 8.036/1990. Na faixa pós-Reforma a verba indenizatória não gera FGTS.

Não encontrou o que procurava? Consulte a equipe de peritos para examinar cartões, sentença e a memória da intervalar nas duas faixas da Reforma, sem promessa de resultado.

Conclusão

A hora extra intervalar do art. 71 da CLT mudou de quantidade, natureza e reflexos em 11/11/2017. Até essa data, a Súmula 437 do TST manda pagar o intervalo inteiro, com integração salarial. Depois, o § 4º da Lei 13.467/2017 limita o pagamento ao tempo suprimido, em verba indenizatória. A perícia separa as faixas, confere a base no salário-base e deixa o mérito da cláusula coletiva para o título.

Mais conhecimento para você: leia também, neste Portal, o cálculo do intervalo intrajornada suprimido e a liquidação no PJe-Calc, e cruze com a sentença do caso concreto.

A Central de Peritos Associados é especializada em perícia contábil, econômica e financeira. Atua em todo o Brasil com equipe multidisciplinar.

Perguntas frequentes

A hora extra intervalar é a mesma hora extra por excesso de jornada?

Não. A hora extra comum remunera o trabalho além do contrato, com natureza remuneratória e base da Súmula 264 do TST. A intervalar nasce da supressão do art. 71 da CLT, usa salário-base e muda de regime em 11/11/2017.

A Reforma de 2017 extinguiu o pagamento do intervalo suprimido?

Não. O art. 71, § 4º, na redação da Lei 13.467/2017, mantém o pagamento, agora indenizatório e limitado ao período efetivamente suprimido, com acréscimo de 50%.

A Súmula 437 do TST ainda se aplica?

Sim, no período até 10/11/2017, sobretudo os itens I (intervalo inteiro) e III (natureza salarial e reflexos). De 11/11/2017 em diante prevalece o § 4º novo.

Pode-se reduzir o almoço para 30 minutos?

A partir de 11/11/2017, o art. 611-A, III, da CLT admite redução por norma coletiva, com mínimo de 30 minutos em jornada superior a seis horas, à luz do Tema 1046 do STF. A validade da cláusula é de mérito; a perícia calcula as duas hipóteses.

A Súmula 340 do TST vale para o comissionista na intervalar?

Não. A Súmula 340 cuida de sobrejornada. Na intervalar não há comissão no intervalo; paga-se hora cheia mais 50%, com fundamento na Súmula 437, I.

Como entra o FGTS na faixa pré-Reforma?

O FGTS de 8% incide sobre hora intervalar + RSR + 13º. Férias indenizadas ficam de fora, na forma do art. 15, § 6º, da Lei 8.036/1990. Na faixa pós-Reforma a verba indenizatória não gera FGTS.

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Escrito por

Robson Antonello

Economista (CORECON-GO 2.648/D), sócio e Diretor Operacional da Central de Peritos Associados. Perito economista especializado em cálculos bancários, trabalhistas e tributários.

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